Racismo inverso existe? Entenda melhor o conceito

O racismo inverso (reverso) é uma questão bastante polêmica, pois de um lado há pessoas que defendem a ideia de que essa discriminação existe, enquanto do outro lado há pessoas que afirmam que isso não tem nenhum fundamento.

Na verdade, para toda prática racista existe um enorme contexto sócio histórico por trás que pode elucidar algumas questões.

Neste artigo você irá acompanhar as raízes históricas do Brasil para entender o conceito de racismo que aqui foi criado, e a partir disso a discussão sobre existir ou não um racismo inverso será aberta.

O que é racismo?

O racismo é um ato que leva preconceito às diferentes etnias. Esse preconceito pode ser expressado por meio de violência, desprezo, humilhação, bullying e outras práticas.

A forma de racismo mais vista aqui no Brasil é o racismo contra pessoas negras. Isso ocorre devido a muitos motivos, que veremos mais adiante.

Por conta do, infeliz, grande número de casos de racismo contra pessoas negras, quando se fala sobre o assunto “racismo” as pessoas logo assumem que estão se referindo ao racismo contra pessoas de pele escura.

Entretanto, o racismo pode ocorrer às diversas etnias. Uma prova disso é o preconceito à asiáticos ou indígenas.

O racismo é considerado um crime. A lei que criminaliza esse ato é a lei 7.716, criada em 1989. Esta lei tem por intuito dar punição aos crimes cometidos por motivos de preconceito à pele e à cor: “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.”.

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Lei 7.716

Criada em 1989, esta lei foi criada pelo então deputado Federal, Carlos Alberto Caó de Oliveira. A lei completou 30 anos no primeiro semestre do ano.

Esta lei tem tem muita importância para a causa, principalmente para os grupos de militantes de direitos aos negros, pois sabemos que no Brasil o racismo é algo que realmente “segrega” os grupos.

A lei 7.716, também conhecida como Lei Caó, prega o tratamento igual para todas as raças. Nesse sentido, qualquer ofensa, descriminalização ou ainda tratamento desigual é considerado um crime.

A lei também ampara as pessoas no ambiente de trabalho, sendo expressamente proibido haver tratamento diferenciado no trabalho (principalmente relacionado ao salário), além de ser crime desqualificar uma pessoa do cargo de emprego por conta da cor ou raça.

O racismo no Brasil

A origem do racismo no Brasil pode ser explicada pela história do país. O Brasil foi fruto de uma “descoberta” pelos portugueses. Hoje, sabemos que a história tratou mais de uma invasão aos povos originários que aqui já habitavam.

Com a colonização e, posteriormente, o período imperial, o Brasil se tornou um lugar escravocrata. Negros eram trazidos para aqui em navios negreiros, e eram depois eram vendidos à grandes senhores.

A maioria desses negros vinham parar nos navios negreiros em condições desumanas: sem o mínimo de higiene e dignidade, para depois serem escravizados, contra suas vontades.

Após a abolição da escravatura, com a Lei Áurea, a situação não foi apaziguada. Pelo contrário, os negros que antes eram escravizados se tornavam agora pessoas marginalizadas.

Com a abolição da escravatura os negros, que antes possuíam uma casa (ainda que fosse a casa dos senhores) agora se encontravam sem rumo, sem nenhum amparo social e com uma “falsa” liberdade.

O que aconteceu foi que favelas se desenvolveram em torno das cidades e pessoas negras ou descendentes de ex-escravos habitavam estes lugares, em massa.

Como consequência disso, as famílias nas favelas cresceram com menos prestígio social do que as famílias de senhores que viviam em cidades, com menos oportunidades e com uma grande desigualdade financeira.

Essa diferença entre as duas etnias foi tão gritante que até hoje podemos ver diferenças, um exemplo disso é a criação de cotas para negros e indígenas. Não haveria necessidade da criação dessas políticas afirmativas se as oportunidades para os dois grupos fossem iguais.

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Afinal, racismo inverso existe?

Por tudo o que vemos nos tópicos acima a resposta já deve estar passando pela sua cabeça. Segundo especialistas da área de estudos sociais, racismo inverso não existe, sabe por quê? Porque nunca houve nenhuma inferiorização do branco em relação ao branco.

O que houve na verdade foi uma supremacia branca, que sempre esteve acima das outras etnias, sendo escravizando (no caso dos negros) ou “apagando” da história (no caso dos indígenas).

Portanto, afirmar que existe um racismo inverso não tem nenhum fundamento. É claro que pode sim ter havido alguma forma de preconceito, mas as razões pelo qual um negro e um branco sofrem preconceitos são bem diferentes.

É impossível comparar a situação do negro com a do branco, tendo em vista as raízes históricas e culturais desse problema. As oportunidades para as pessoas nunca foi semelhante aqui no Brasil e a prática de preconceito à uma pessoa branca não tira nenhum privilégio que ela possa ter.

Segundo especialistas da área de Antropologia Social, um negro tendo atitudes de preconceito contra brancos jamais implicaria em uma estrutura de racismo inverso porque isso não muda a história de racismo estrutural do Brasil.

Para entender melhor a diferença entre o racismo contra negros e o preconceito de parte isolada de um grupo negro contra brancos, entenda a diferença entre preconceito e discriminação.

Racismo e discriminação

O preconceito é um julgamento prévio acerca de uma pessoa ou de um grupo de pessoas, o preconceito geralmente está ligado aos estereótipos. Algumas pessoas podem ter opiniões preconceituosas e nunca se manifestar, pois ele é mais como uma ideologia.

Já a discriminação é o ato do preconceito, quando alguém discrimina ela está fazendo distinção entre as pessoas, impedindo as pessoas de gozarem de seus direitos.

Para concluir, frisamos que o racismo inverso enfraquece a luta negra no Brasil, pois isso é também uma forma de desconsiderar uma luta que para os negros tem tanto significado. O racismo anti-negro que houve no Brasil tem morte, tortura , sofrimento e resistência em cada passo da história, e tentar colocar um racismo inverso nesse processo é uma forma de minimizar uma briga justa por igualdade.

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